Políticas de mobilidade não estimulam o uso de transporte público no Brasil

Na década de 1950, durante o governo de Juscelino Kubitschek, o país passava por um intenso processo de urbanização. A indústria automobilística era um dos pilares do desenvolvimento do país. O poder desse setor econômico era tão grande que, aos poucos, os brasileiros assistiram ao transporte ferroviário cair em desuso e ceder lugar aos ônibus e aos caminhões. Nas cidades, os bondes elétricos foram substituídos pelos carros particulares. Pouco a pouco, os centros urbanos do país foram se adaptando à forma que têm hoje e o espaço público passou a ser tomado pelos veículos privados.

A realidade de meados do século passado não é muito diferente da que temos hoje. Os números do investimento público em transporte indicam que a indústria automobilística continua sendo prioridade nas decisões políticas sobre mobilidade. De acordo com a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), dos R$ 10,3 bilhões que o Brasil desembolsa para manter a estrutura viária, apenas R$ 2,4 milhões vão para o transporte coletivo, enquanto R$ 7,9 milhões são destinados ao individual, em especial carros e motos.

O menosprezo ao transporte público também pode ser traduzido nos preços que pesam no bolso do cidadão. De 2002 a 2012, a tarifa dos ônibus urbanos subiu 111% e o preço do óleo diesel, utilizado neles, aumentou 200% no Brasil. No mesmo período, o valor do carro novo cresceu apenas 6,3% e o da gasolina, 43,9%. O resultado desse estímulo desigual é o crescimento exagerado da frota de veículos individuais e, consequentemente, o agravamento da crise de mobilidade no país.

Por outro lado, dar prioridade aos meios coletivos de locomoção não é tarefa fácil. Os interesses das grandes empresas de transporte geralmente barram medidas que poderiam democratizar o uso dos ônibus e desafogar o tráfego dos centros urbanos. A cobrança de uma tarifa justa, a valorização dos trabalhadores rodoviários e a modernização da frota de ônibus são medidas urgentes para solucionar os problemas do trânsito.

Para o presidente do Sinttrol, João Batista da Silva, os números refletem a insistência do governo em uma política que, há muito tempo, favorece apenas a indústria automobilística. “As cidades brasileiras convivem há anos com uma grave crise de mobilidade, que afeta a qualidade de vida de todos. O trânsito caótico que temos atualmente só será solucionado com o investimento em um transporte coletivo acessível, de qualidade e vantajoso para os cidadãos”, defende.

Fonte: Sinttrol

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